sábado, maio 28, 2005

1984...Orwell

É interessante, eu não tenho um posicionamento político claramente definido ou, ao menos, não me sinto capaz de me situar exatamente em nenhum lugar específico. Eu sinto como se flutuasse conforme o local, entretando, se eu estou engajado em um movimento social, lutando por uma causa, eu acabo me tornando bem radical, radicalmente a favor das decisões consensuais, do fluxo intenso de informações, da liberdade de expressão e de informação e da certeza de que heróis são mera construção ficcional, mera encenação, que aplaude quem quer.

Da minha parte, eu estou pouco de lixando se um porco qualquer (no sentido do filme, claro) tem uma percepção de si mesmo extremamente distorcida negativamente, no popular, se tem sua auto-estima no chinelo.

Sou radical em condenar com a mesma veemencia aqueles que se fazer algozes de uma causa e que atuam segundo os mesmos preceitos daqueles que desejam depor. Não há como não fazer referência direta à nossa história recente, século passado e afirmar: não há diferença relevante para mim entre Stalin e Franco, apenas para pegar os dois como exemplos de autoritarismos de direita ou de esquerda que podem muito bem ilustrar as partes do movimento que hoje integro.

É claro que esse radicalismo me torna indesejado tanto para Stalin, quanto para Franco e teria que fugir para algum país distante e viver em alguma comunidade alternativa de minha metáfora, mas como é do meu feitio, eu prefiro esperar minha senteça de banimento das terras de Stalin e que não me convidem para nenhum pais em que esteja sendo implantado qualquer novo regime que não seja de fato plural, participativo e consensocrático.

Se querem que eu participe de qualquer associação, que todos os seus membros se comprometam a ler 1984 antes e aqueles que não forem capazes de ler um livro inteiro, que assistam a alguma das adaptações para a TV ou para o Cinema, quem não tiver assistido poderá não ter consciência de por que está batendo de frente comigo.

Eu peguei o trecho abaixo do Mídia sem Máscara, mas não estou falando do assunto que eles falavam quando citaram, mas confesso, serviu como uma luva profética...

1984

- Como vai o dicionário? - perguntou Winston, levantando a voz para se fazer ouvir.

- Devagar - respondeu Syme. - Estou nos adjetivos. É fascinante.

O rosto se lhe iluminara imediatamente com a menção da Novilíngua. Empurrou a marmita para o lado, apanhou com a mão delicada o cubo de queijo, o pedaço de pão com a outra, e ínclinou-se sobre a mesa, para poder falar sem gritar.

- A Décima Primeira Edição será definitiva - disse ele. - Estamos dando à língua a sua forma final - a forma que terá quando ninguém mais falar outra coisa. Quando tivermos terminado, gente como tu terá que aprendê-la de novo. Tenho a impressão de que imaginas que o nosso trabalho consiste principalmente em inventar novas palavras. Nada disso! Estamos é destruindo palavras - às dezenas, às centenas, todos os dias. Estamos reduzindo a língua à expressão mais simples. A Décima Primeira Edição não conterá uma única palavra que possa se tornar obsoleta antes de 2050.

Mordeu famintamente o pão e engoliu dois bocados. Depois continuou a falar, com uma espécie de paixão pedante. O rosto magro e moreno animara-se, os olhos haviam perdido a expressão de chacota e tinham-se tornado quase sonhadores.

- É lindo, destruir palavras. Naturalmente, o maior desperdício é nos verbos e adjetivos mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinônimos; os antônimos também. Afinal de contas, que justificação existe para a existência de uma palavra que é apenas o contrário de outra? Cada palavra contém em si o contrário. "Bom", por exemplo. Se temos a palavra "bom," para que precisamos de "mau"? "Imbom" faz o mesmo efeito - e melhor, porque é exatamente oposta, enquanto que mau não é. Ou ainda, se queres uma palavra mais forte para dizer "bom", para que dispôr de toda uma série de vagas e inúteis palavras como "excelente" e "esplêndido" etc. e tal? "Plusbom" corresponde à necessidade, ou "dupliplusbom" se queres algo ainda mais forte. Naturalmente, já usamos essas formas, mas na versão final da Novilíngua não haverá outras. No fim, todo o conceito de bondade e maldade será descrito por seis palavras - ou melhor, uma única. Não vês que beleza, Winston?

Naturalmente, foi idéia do Grande Irmão, - acrescentou, à guisa de conclusão.

Uma tênue ansiedade perpassou pelo rosto de Winston à menção do Grande Irmão. Isso, não obstante, Syme imediatamente percebeu nele uma certa falta de entusiasmo.

- Não aprecias realmente a Novilíngua, Winston - disse, quase com tristeza. - Mesmo quando escreves em Novilíngua, pensas na antiga. Tenho lido artigos teus no Times. São bons, mas são traduções. No teu coração, havias de preferir a Anticlíngua, com toda a sua imprecisão e suas inúteis gradações de sentido. Não percebes a beleza que é destruir palavras. Sabes que Novilíngua é o único idioma do mundo cujo vocabulário se reduz de ano para ano? Winston naturalmente não sabia. Sorriu, com ar de simpatia (ao que esperava), não confíando em suas próprias palavras. Syme mordiscou outro fragmento do pão escuro, mastigou-o um pouco e continuou: -Não vês que todo o objetivo da Novilíngua é estreitar a gama do pensamento? No fim, tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la. Todos os conceitos necessários serão expressos exatamente por uma palavra, de sentido rigidamente definido e cada significado subsidiário eliminado, esquecido. Já, na Décima Primeira Edição; não estamos longe disso. Mas o processo continuará muito tempo depois de estarmos mortos. Cada ano, menos e menos palavras e a gama da consciência sempre um pouco menor. Naturalmente, mesmo em nosso tempo, não há motivo nem desculpa para cometer uma crimidéia. É apenas uma questão de disciplina, controle da realidade. Mas no futuro não será preciso nem isso. A Revolução se completará quando a língua for perfeita. Novilíngua é Ingsoc e Ingsoc é Novilíngua, - agregou com uma espécie de satisfação mística. - Nunca te ocorreu, Winston, que por volta do ano de 2050, o mais tardar, não viverá um único ser humano capaz de compreender esta nossa palestra?

- Exceto... - começou Winston, em tom de dúvida, mas parou de repente.

Estivera a pique de dizer "Exceto os proles" mas controlou-se, sem ter plena certeza de que essa observação fosse ortodoxa. Syme, todavia, adivinhara o que ele quisera dizer.

- Os proles não são seres humanos, - disse ele, descuidado. - Por volta de 2050, ou talvez mais cedo, todo verdadeiro conhecimento da Anticlíngua terá desaparecido. A literatura do passado terá sido destruida, inteirinha. Chaucer, Shakespeare, Milton, Byron - só existirão em versões Novilíngua, não apenas transformados em algo diferente, como transformados em obras contraditórias do que eram. Até a literatura do Partido mudará. Mudarão as palavras de ordem.

Como será possível dizer "liberdade é escravidão" se for abolido o conceito de liberdade? Todo o mecanismo do pensamento será diferente. Com efeito, não haverá pensamento, como hoje o entendemos. Ortodoxia quer dizer não pensar... não precisar pensar. Ortodoxia é inconsciência.

Qualquer dia, refletiu Winston, com convicção profunda e repentina, Syme será vaporizado. É inteligente demais. Vê demasiado claro e fala sem subterfúgios. O Partido não gosta de gente assim. Um dia ele desaparecerá. Está na cara.

sexta-feira, maio 20, 2005

Acho que consegui encerrar minha catarse...

Sabe, eu gostei muito dessa foto, ela me tocou muito, talvez por que meu filho ainda é muito pequeno, indefeso, mas sabe, olhei para essa foto e pensei, é isso, o que fazemos é colocar nossos filhos na boca do cano de nossas armas, precisamos parar com isso... precisamos "dar uma chance à paz", por mais piegas que isso possa soar...

Melhor que isso, só se esse passarinho tivesse um cravo e uma rosa cruzados em seu bico, já pensou?

Representaria a lealdade inata que todo filho tem para com ambos os pais e que não é respeitada muitas vezes...

Essa imagem, você não imagina quantas pessoas já vieram falar comigo apenas para comentar como ela mexeu com essas pessoas, uma colega disse que estava com lágrimas nos olhos... só essa imagem... e o fato de saber o que eu havia feito, encerrado o conflito para proteger meu fiho do próprio conflito.

Essa imagem eh realmente muito forte, lembra também solidão, nao acha?

Quanto à solidão, tambem não falamos de solidão, de abandono?

Olhando para ela, eu diria, ela representa muito da causa, muito mesmo.

Solidão, abandono, guerra, paz, inocência, filho indefeso, eu versus mundo, ponto versus imensidão.

E o que fazemos mesmo quando queremos o que é bom, confiamos nisso? Estrategemas, táticas, belicosidade, animosidade contra pessoas que um dia amamos e com nossos filhos no meio. Mesmo acreditando que estamos certos, é como se estivéssemos em uma guerra santa.

É como se fôssemos os cristão atacando os muçulmanos... cruzados em prol do bem-estar de nossos filhos, como cristãos em nome do seu deus.

Entende? Não quero lhe convencer a não lutar pelo melhor para o seu filho, mas é que a forma, o instrumental para se decidir o melhor para o filho é um campo de batalhas... e nesse campo de batalhas está presente nosso maior tesouro, mesmo que não esteja fisicamente presente, cada coisa dita, provada, testemunhada repercute em nossos filhos...

Cada sentimento negativo absorvido por nós é absorvido por eles...

quinta-feira, maio 19, 2005

Um amigo meu, que era irmão de duas amigas minhas, uma delas separada e com filhos, disse brincando certa vez que quando fosse ao casamento da outra irmã, iria com uma plaquinha: "Não aceitamos devolução". Olha que só ela e o filho haviam retornado à casa do pai e ela tinha o carro dela, trabalhava, estudava.

Agora eu fico pensando como esse meu amigo ficaria se ela além de ter voltado para a casa deles (ele ainda tinha menos que 25 à época), ela tivesse se casado de novo e o marmanjão tivesse ido morar com eles também...

Em todo caso, eu falei isso por algo que eu vi dias atrás, algo deprimente, como a infelicidade ou a felicidade forjada pode acabar com a beleza das pessoas, como aquilo que está dentro de nós toma conta do nosso exterior contra nossa própria vontade, como uma pessoa linda pode ficar assim tão feia em tão pouco tempo. Antes havia a inadequação, eu reconheço, uma jovialidade tardia, que se harmonizou em pouco tempo na representação de si, mas ao fim, era tosco, tosco a ponto de chamar a atenção de quem nada tinha a ver.

Não há como barrar o nosso interior, ele se expressa quer queiramos, quer não, não há maquiagem que resolva. Tá, eu aceito que costumam dizer que sou meio médium, que eu tenho os "canais abertos" e que eu "vejo a alma a partir dos olhos", mas o pior é que era coletivo, a feiura contaminava a todos, até aqueles que, pela idade, já estão acima do feio e do bonito, aqueles estavam malajambrados, o que a idade não mais permite.

O mais intrigante era porém nosso amigo Lord Coeur de Roche, que estava usando seu uniforme azul impecavelmente roto. Como um Lord acaba desse jeito? Tão sem brilho, tão sem graça? Será a pedra em seu peito que o faz sofrer dessa maneira? Será contagioso? Todos que toca têm seus corações endurecidos e isso os faz carregar em seus peitos um peso que não podem suportar, como um Midas com uma maldição invisível? Só não consigo atinar para a origem de tal maldição, provavelmente nunca vou saber, mas que tais efeitos são notáveis, isso são.

Agora me vem à mente a cena, eu me remeterei ao cinema, apesar da imperfeição, do final do remake de Lolita, quando o antigo amante da Lolita atende ao seu pedido por dinheiro, mas o leva pessoalmente. O contexto é falho, mas o sentimento é o mesmo, é como se estivesse assistindo ao remake de Lolita de novo agora, depois de cinco anos, nítido, e, de repente, tudo não passou de uma profecia auto-realizadora, o tempo se contrai em minha mente, dói, tenho que massagear meus cabelos enquanto escrevo, é louco e real ao mesmo tempo, como se a figura que eu imaginasse completa, fechada, ganhasse, a partir de um único instante, três dimensões.

A profecia precisava se cumprir, nosso amigo Lord Coeur de Roche tinha seu papel a desempenhar e o desempenhou de forma brilhante, salvo que a personagem do filme, embora quase irrelevante, embora também tivesse o privilégio de não conhecer o passado da sua Lô, já começava, mesmo que com certa dificuldade, a construir um futuro só deles dois, embora Lolita insistisse em trazer o passado para dentro de casa, para perto de seus filhos, os filhos eram ao menos seus...

Às vezes parar pode nos levar mais longe que voar


Vano Shlamov/AFP

Pássaro pousa em cano de arma em
base militar russa na Geórgia Posted by Hello

quarta-feira, maio 18, 2005

Resolveu lutar com flores e poesia ou resolveu não lutar e entregar flores e poesia?

Vamos lá.. me conta tudo.. como é a história?
Resolveu lutar com flores e poesia?
Resolveu não lutar e entregar flores e poesia?

Flores brancas não trouxeram a paz, quem sabe não foram despedaçadas no mesmo instante? Poesia, não me sinto capaz de fazer, então minha prosa, que talvez tenha algo de poético, ela também não trouxe a paz, mesmo acompanhada de flores e que essas flores fossem brancas.

As duas respostas estão certas. Eu declinei da guerra, mas não, não deixerai de lutar e continuarei a luta com as armas que eu domino, as flores e a poesia, mesmo que seja em prosa.

Lembram de Hiroshima? A guerra foi vencida inconteste, mas a que custo e destruição? Hiroshima será sempre motivo de vergonha, sempre motivo para alguém apontar, outros 50 anos não bastarão para que se apague a mancha dessa vitória.

Lembram do Vietnan? A bomba não foi usada, estava lá, não foi usada. Os vietcongs venceram. Vencearam? Só houveram perdedores, foi sim uma clara vitória de Pirro aquela.

Vivi um ano inteiro da minha vida com o dilema, uso a bomba, não uso a bomba. Bomba que me garantiria vitória, mas a que custo? Quanto me custaria tê-la usado? E manter a guerra sem usar a bomba, bem, qual teria sido, ao final, o custo para ambos os lados, haveria vitória? Alguém ganharia?

Hoje mesmo, já me sinto um vencedor, pois fui capaz de encerrar a sangria, sou também um perdedor, posto que perdi oficialmente, tal guerra, capitulei, mas houve vencedor? Não, houve apenas perdedores e, principalmente, um grande perdedor que, como sempre, nem estava entre os exércitos.

Sou um vencedor em mim mesmo, tenho dois orgulhos nisso tudo, que não poderão me ser jamais tirados: Não fui eu que comecei e fui eu que terminei. Em dois momentos distintos e separados por praticamente exatos um ano de batalhas eu venci por me manter íntegro e fiel aos meus compromissos, mesmo quando o outro exército não mais o foi. Fui ético, ainda que não acredite nessa tal de ética e que, principalmente, esta não estivesse presente na guerra.

Fui um vencedor por não usar a bomba. Usar a bomba, ou o "garotinho", como era chamada, não iria só me fazer ganhar a guerra, ia destruir muita coisa, muita coisa que eu pouco ligo que fosse destruída, mas muita coisa que era o próprio motivo de se estar guerreando. Cheguei a pensar em usar uma pequena ogiva, mas até meus soldados estavam reticentes quanto aos estragos, que não eram possíveis de se calcular, mesmo em pequena escala. Exatamente como foi Hiroshima, só que eu estava no comando, eu pude dizer não a tempo.

Quanto a lutar com flores e poesias de agora em diante, o que posso dizer é que não se faz uma primavera com uma única flor, meu jardim, este sim, terá mais flores e só por isso já terá mais poesia, mas não desisti da primavera.

terça-feira, maio 17, 2005

Não, nao foi uma Vitória de Pirro! Seria uma ao final...

Citação:
No ano de 279-AC, o rei Pirro, de Épiro (na atual Albânia), reuniu seus oficiais no campo de batalha de Asculum, perto de Roma, para saudar a vitória parcial das suas tropas contra o poderoso exército romano. Diante das enormes perdas de oficiais e soldados, porém, ele constatou que "com mais uma vitória como esta" o seu reino estaria perdido. Daí o termo "vitória de Pirro", que expressa uma conquista em que as perdas do vencedor são tão grandes quanto as do perdedor.

Hoje consegui uma pequena vitória, em favor da urgência, em detrimento de uma grande causa, de importância verdadeira. Não posso falar exatamente como foi assim em público, por que estaria violando segredo de justiça, mas me sinto bem com essa pequena vitória que pôs fim ao meu processo.

Agradeço ao Ineskecível, que postou aquele artigo da Dra. Deirdre, ele foi iluminador, pois descobri que estava brigando pela coisa errada, eu já sabia que estava brigando no lugar errado e isso me permitiu me desarmar definitivamente e buscar outro caminho.

Agradeço principalmente à terapia, que está me conduzindo em meu processo de individuação, que me permitiu ou facilitou meu enfrentamento com minha anima, especificamente minha anima sombria, que foi também importantíssimo no processo de iniciar uma luta verdadeira, pelo que realmente quero e com chances de vencer.

Por fim, lembram daquele cara que propôs um acordo, a pessoa com que ele estava negociando não aceitou o acordo querendo lhe estorquir mais e quem arbitrava acabou dando até mais do que aquele cara pedia? Tá, mesmo considerando que aquele cara pedia muito menos que era direito, certo, razoável, os fatos acabaram sendo melhores que a expectativa e isso é uma vitória verdadeira, conseguir mais do que se espera, mesmo que não seja aquilo que é certo e direito. De que valeria uma vitória no futuro com tantas perdas pelo caminho? Isso sim, seria uma vitória de pirro inquestionável.

E bem, não pense que eu vou desistir da causa, pois ela, bem sei, não é para mim que luto, nem para o meu filho enquanto filho, mas para meu filho enquanto pai e seus filhos, meus netos. Então ainda vou estar perturbando, incomodando, zoando no ouvido de muita gente por aí. Batendo de frente contra o autoritarismo que tanto ainda se faz presente em nosso Brasil, contra o machismo e contra tudo que nos faz menos felizes.

Só posso dizer que a partir de hoje meu filho não será mais um filho do divórcio, ou ao menos não só dele, ele agora tem um pai e um pai capaz de reaver a poesia de sua vida e que fará tudo para levar poesia a ele e tantas gerações que ainda virão pela frente!

Ainda que falte um pouco para que complete meu processo de individuação,
agora sim, posso dizer, isso é só o começo!

segunda-feira, maio 16, 2005

sou ansiedade diluida em sangue

Eu falo: Pra que perder tempo Desperdiçando emoções
Você nao me entende: hmm..
Eu explico: só outro verso, da mesma música!
Você se contenta: tudo bem?
Eu sussuro: Eu sou um barril de pólvora, mas acho que posso dizer que estou bem melhor que na outras vezes!
E continuo: Talvez melhor: Eu estou uma pilha, com os nervos à flor da pele, sou ansiedade diluida em sangue!
Você se identifica: estou tal qual você neste momento.
E se prontifica: mas e você, é algo em que eu possa ajudar?
Eu me surpreendo: É? O que lhe incendeia?
E lhe atendo: Ao existir, você me ajuda, ao me ouvir, salva-me do abismo de sentir sem me expressar, ao perguntar por mim, aquece-me sem me tocar!
Você me agracia: gostei disso...
E me confessa: quero conversar, mas eu tenho que almoçar agora e ir para o trabalho.
Eu me comprometo: Tá bom, se quiser, estou aqui, se não estiver aqui, estarei em meu telefone, se não me achar ao me procurar, manda uma mensagem por telepatia, que lhe devolvo um afago no mesmo instante!

domingo, maio 15, 2005

É um momento tão mágico esse, eu e meu filho temos tão pouco tempo juntos, mesmo assim ele consegue me fazer tão alegre.

Estive com ele ontem, mesmo assim, ainda hoje passo o dia todo me lembrando de cada momento, de cada instante em que estivemos juntos, de cada conquista dele, de cada conquista minha e, por que não, de cada conquista nossa.

Podem me criticar, mas meu filho é sim a maior razão para que eu continue a viver. Apresentar um mundo cheio de poesia, de esperança, de utopia é o que me faz inspirar e expirar tantas vezes por minuto.

Eu me perguntei certa vez se eu não estaria jogando uma carga muito pesada sobre os ombros de meu filho, por ter sofrido e ainda sofrer com sua ausência, em que ele acreditasse que devesse me retribuir todo o amor que sinto por ele.

Não, não é preciso retribuir, não mais que toda a alegria que você já me provê sempre que estamos juntos, tudo isso, todo esse amor, todo esse afeto, todo esse carinho, todas as suas conquistas já me retribuem por demais meu amor, aliás, talvez nem seja eu merecedor de tanto afeto, de tanto carinho.

E aproveito uma atitude do meu filho, uma dessas saias justas a que as crianças muitas vezes submetem os adultos. O titio D. veio de carona com a gente da casa da Nona (vovó K.), tal que quando chegamos na casa da vovó L., como de costume, foi a vovó L. que veio receber nosso amorzinho, mas ele quis apresentar a vovó L. e o titio D., a vovó L. veio, "re-conheceu" o titio D. e, a partir disso, registro um mea culpa:

Muitas vezes, aliás durante quase todo o tempo do meu relacionamento e depois dele, desloquei a responsabilidade pelos suscessivos fracássos para a figura da minha então sogra, a vovó L., se é que é possível pensar que existem ex-sogras quando se têm filhos, talvez essa tenha sido uma das grandes razões que os sucessivos fracassos se converteram em um fracasso definitivo, pois a responsabilidade por nossos erros não estão em outros, mas em nós mesmos.

Sim, minha ex-sogra exerceu plenamente seu papel de sogra de caricatura, mas a responsabilidade por nossa família não era dela, era nossa, a responsabilidade pelos erros eram nossos, até por que os erros que nos fizeram naufragar não eram de outrem, mas nossos e somente nossos e não assumir isso a tempo foi o que nos destruiu, com isso atrapalhamos muito nossas vidas, mas, principalmente, atrapalhamos por demais a vida de nosso filho e esse é o meu maior pesar em tudo isso, pois essas marcas ficarao presentes para sempre em todos nós, mas serão, sem dúvida, muito mais marcantes para ele, mas se tudo der certo, um dia ele vai ter ajuda para trabalar essas e outras questões de sua vida...

quinta-feira, maio 12, 2005

Eu acho que me emociono fácil, admito que "qualquer cena de novela me faz chorar", poucas pessoas percebem isso, algumas viveram comigo intensamente e nunca perceberam, acho que eu disfarço bem.

Descobri que também "ando tão a flor da pele que", absurdo, clico em "Next blog", next, next e começo a ler This is Your War, e depois sigo o link mybeautifulwife e qualquer post de blog me faz chorar.

E eu estou tão chorão, que outro dia o convite de uma exposição que um amigo me enviou também me fez chorar, não, ainda não tinha ido à exposição, simplesmente o convite me emocionou sobremaneira.

terça-feira, maio 10, 2005

Thanks all!

Tenho que agradecer o carinho e a colaboração das pessoas, sem a ajuda de vocês eu não teria nenhuma chance! Obrigado pelo esforço e, podemos até chamar, dedicação! Espero que em breve possamos ter nossas crianças brincando juntas de novo de quando em vez, que possam ir à praia juntos, que possamos curtir toda a alegria de nossos filhos brincando juntos.

Também aqueles que ainda não têm filhos, mas que estão se empenhando mesmo só com uma noção sobre o que acontece conosco e que estão ajudando a construir um mundo melhor, não só para minha família, mas para muitas outras famílias no futuro.

E também para aqueles que nos enviam mensagens de carinho, vocês não imaginam a importância que elas têm, como nos ajudam a seguir em frente a acreditar e lutar por um mundo belo. Se nem sempre podemos retribuir da maneira merecida, perdoem-nos, mas saibam que vocês estão em nosso coração, mais a cada dia, mais a cada lembrança e que isso nos permite ter fé!

Que a rosa branca vença a rosa de hiroshima

Estou me sentindo bem, embora não saiba descrever exatamente o sentimento, eu fiz algo que deveria ter feito há muito tempo, demorei muito a fazer, mas fiz, de fato, não adiantava fazer sem que eu fosse sincero naquilo que estava fazendo e eu fui, talvez não seja acreditado, mas eu fiz, esperei o momento em que poderia fazer com a confiança de que era real e fiz, em verdade era também uma das últimas chances de fazer, se deixasse para depois, não poderia mais fazer.

Lembro neste momento do bom e velho conceito de justiça que as crianças têm: um estabelece os termos do acordo entre as partes, o outro escolhe se é parte A ou B, é uma forma inigualavelmente justa, pois implica que aquele que estabelece os termos fará um exercício para procurar que nenhuma das partes fique em desvantagem ou que, claramente, os desejos e necessidades de cada uma das partes sejam prioritariamente atendidos. Em outras palavras, o primeiro parte a maça, o segundo escolhe o pedaço.

Recorremos a isso nossa vida toda, sempre que temos que fazer um acordo, acabamos, no fundo, com a idéia de que um estabelece os termos e o outro escolhe qual parte é naqueles termos. Às vezes esse acordo tácito não é explícito, pois os termos de acordo não são comuns, a linguagem não é comum e o exato ponto onde se fazem as escolhas, quer seja dos termos, quer seja das partes, nem sempre é claro, conhecido ou comum para todos.

Por exemplo, se somos tomados de assalto, podemos supor que escolhemos os termos ao fugir ou ficar, mas não sabemos se os termos que a outra parte nos impõe são "se ficar, eu sequestro" ou "se fugir, eu mato" ou qualquer outra combinação e temos que fazer uma escolha baseada tão somente em intuição.

No mundo comercial é a mesma coisa, vivemos dilemas diariamente em relação a clientes, fornecedores e colaboradores, pois não sabemos e, de fato, não temos como saber exatamente quais os termos que estão sendo nos propostos e, às vezes, nem os termos que estamos, de fato, propondo aos outros para que escolham.

O que quero dizer é que inevitavelmente sempre estamos estabelecendo termos e tomando parte, às vezes simultaneamente, numa relação naturalmente insegura, pois nem mesmo sabemos se nossos termos estão sendo compreendidos como os propomos e sabemos, naturalmente, que estamos compreendendo o termos da outra parte de forma diferente do que ela nos propõe, o que gera, inevitavelmente, um conflito.

Então temos a opção de endurecer ou flexibilizar e, normalmente, fazemos isso no mesmo rítmo que a outra parte, mas podemos, em algum momento flexibilizar radicalmente, num apelo de abertura, para que os termos propostos pela outra parte também sejam flexibilizados, é o que faço agora, fiz algo bom para mim, sem dúvida, mas que também baixa as guardas num conflito em que os termos foram estabelecidos de forma endurecida, no momento em que se antecede mais uma grande batalha, ou seja, posso conseguir que os termos sejam flexibilizados e que a batalha não aconteça, a paz seja estabelecida, ou não.

Ao baixar a guarda podem acontecer duas coisas: ou você pode ser atingido e derrotado, ou pode encerrar o conflito, mas como fica você se, ao baixar a guarda, a outra parte tenta se aproveitar disso para lhe desferir um golpe fatal, só que é você quem tem a bomba definitiva, ou seja, você escapa, recua em uma batalha e...?

Esse é, efetivamente, um momento de grande tensão, pois você não quer usar a bomba, ela é uma alternativa muito controvertida, mas chega um momento em que a guerra não pode mais continuar também.

É por isso que a guerra e ruim, e burra, pois haveria, certamente, uma solução adequada, justa, que se adequasse a ambas as partes, que só produziria vencedores. A guerra é a opção burra, pois só produz perdedores. Ambos os lados lutam para saber quem vai perder menos e não quem vai ganhar.

Outra coisa a respeito das guerras são relativas ao fórum em que ela ocorre, esse também nem sempre é comum e, especialmente no caso de uma guerra, cada parte vai buscar o fórum em que tem mais vantagens, lógico, vai trazer a luta para o terreno em que pode vencer. Só que ambos querem fazer isso e quando uma das partes já está no fórum em que tem mais vantagens, vai lutar para lá permanecer.

Só que novamente, não temos controle sobre as ações do outro, sem que percebamos, a outra parte pode manobrar e mudar o fórum para um em que as nossas vantagens sejam mínimas e vice versa, nossa manobra pode nos remeter a um fórum vantajoso para nós.

E aí é que complica de vez, pois os fóruns normalmente são os mais pacíficos, diretos, passam aos mediados, aos arbitrados e assim por diante. Em cada um desses fóruns cada uma das partes pode ter mais ou menos força, só que cada um desses fóruns também radicaliza ainda mais a disputa, impede que as partes busquem, de fato, um acordo.

Uma das partes pode ser realmente mais forte que as demais, mas todos acompanhamos o World Trade Center caindo dentro da capital financeira do mundo, no coração da maior potência bélica do mundo. Ninguém pode negar que os norte-américanos são, invariavelmente a nação mais poderosa do planeta, mas alguns ativistas islâmicos produziram verdadeiro estrago naquela nação, estrago cujos desdobramentos ainda reverberam em seu interior, ou seja, sua força foi relativizada. Toda a força da nação norte-americana não é capaz de por fim aos conflitos no Iraque. E todos perdem, inclusive os próprios norte-americanos perdem com tudo isso.

O que quero dizer é que radicalizar só endurece as coisas, só eleva o conflito e que flexibilizar evita o conflito, eu quero flexibilizar, hasteei bandeira branca, com o objetivo real de por fim a mais de 12 meses de conflito, quero uma solução em que todos ganhem e nada se perca, mas não exitarei em lutar para proteger aqueles que amo mais que tudo.

Hoje sou mais forte do que era, talvez só por isso possa propor a paz, pois penso que a manutenção do conflito sirva àqueles que não tenham perspectiva de vitória, melhor o conflito que a derrota. Então propor a paz quando se está em condições de ganhar em conjunto ou em perder menos, eu reconheço, é mais fácil e eu perco menos no final.

Só que, ao se optar pelo conflito, é preciso lembrar sempre, que os termos foram escolhidos por quem optou pelo conflito, ou se é forte o bastante para vencer ou se terá que contentar com a parte que lhe couber ao perder, que, dependendo do fórum...

segunda-feira, maio 09, 2005

Modelo de contrato de garantia de convivência parental

Pelo presente instrumento particular de GARANTIA DE CONVIVÊNCIA PARENTAL, de um lado _(qualificação completa do homem)_, de ora em diante denominado simplesmente de primeiro contratante (Pai) e, do outro lado, _(qualificação completa da mulher)_, denominada simplesmente de segundo contratante (Mãe), têm, entre si, justo e contratado, o que segue, não havendo qualquer limitação legal entre as partes ao exercício do Poder Familiar, o relacionamento parental será regido pelas seguintes cláusulas, havendo filho deste relacionamento ou planejamento para sua existência:

1 - As despesas inerentes a gestação e ao parto, serão rateadas entre os pais na proporção de metade para cada um, ou de acordo com a possibilidade de cada um, preferindo-se que as decisões sejam tomadas em consenso e sejam acompanhadas da prestação de contas mensal relativas às despesas realizadas por cada uma das partes e que não ultrapassem, no conjunto de todas as despesas relativas aos filhos do casal, 20% dos rendimentos líquidos de qualquer uma das partes no exercício mensal.

2 - As decisões sobre o parto serão tomadas em conjunto, podendo o pai presenciar o nascimento do filho, bem como o convívio mais intenso possível com o bebê, especialmente durante toda primeira semana ou período correspondente à licença paternidade obtida pelo pai.

3 - A criança terá no seu registro de nascimento os últimos sobrenomes da mãe e do pai, bem como todas as qualificações registradas neste instrumento.

4 – Os pais deverão se organizar para que ambos possam ter uma convivência regular e diária com seus filhos e filhas.

4.1 – Durante o período de aleitamento materno a rotina de convivência deve permitir e incentivar o aleitamento materno, o que não deve impedir convivência regular e diária entre o bebê e ambos os pais, que devem podem leva-lo consigo à casa de parentes e amigos de ambas as famílias de origem.

4.2 – Dos nascimento aos 18 meses o bebê não deverá ser afastado simultaneamente de todos os seus cuidadores primários, aqueles com quem tem estabelecido um vínculo de apego seguro (normalmente pai, mãe e babá) por períodos maiores que 3h. Qualquer mudança na rotina deverá ser gradual e permitir o estabelecimento do vínculo do bebê com novos cuidadores, bem como se adaptar às ausências recorrentes ou prolongadas daquele cuidador que terá de se afastar.

4.3 – De 18 a 36 meses a criança não deverá ser afastada de qualquer um de seus cuidadores primários, especialmente do pai ou da mãe, por período maior que dois dias, podendo, caso os pais sejam separados, dormir na casa de um ou de outro, sempre respeitando a necessidade de adaptação gradual da criança pequena.

4.4 – A partir dos 3 anos, conceitos como semana, dia útil, feriado, festas e outros já começam a ser compreendidos pela criança, o que deve ser considerado quanto ao cuidado de convivência, que precisa conter períodos de trabalho, estudo e lazer com ambos os pais.

5 - A guarda do filho será compartilhada, sendo todas as decisões tomadas em conjunto. Em caso de separação, o casal passará a utilizar os serviços de mediador, em princípio psicólogo especializado em terapia de família.

6 - Todos os períodos de férias, feriados e recessos escolares serão alternados e divididos em tempos iguais entre os pais, sem desrespeitar a clausula quatro deste instrumento.

7 - Todas as despesas relativas à educação, à alimentação, à saúde e ao lazer, bem como qualquer despesa não prevista que se faça necessária, serão acordadas em consenso e divididas na proporção de metade para cada um, salvo quando pactuado em contrário e deverão ser devidamente comprovadas.

8 - Os contratantes estão obrigados a informar todos os compromissos em que seja necessária a presença parental em tempo hábil, tais como consultas médicas, reuniões escolares, acompanhamento psicológico, dentre outros.

9 - Ambos os genitores terão livre acesso ao filho sem limitação de tempo e forma de visitação, buscando a convivência equânime entre o filho e ambos os pais.

10 - Será garantido aos pais sua presença e acompanhamento em casos de doenças, acidentes ou qualquer trauma de maior proporção e, quando a criança estiver internada (clínica, hospital ou mesmo em internação domiciliar) será garantido livre trânsito de ambos os pais no local da internação.

11 - Qualquer conflito entre as partes, terá a mediação como forma de solução e o parecer ou relatório do profissional mediador será documento reconhecido previamente por ambas as partes como legítimo para a instrução de processo judicial.

12 - O não cumprimento das cláusulas acima implicará no pagamento de multa no valor de dois salários mínimos por mês a serem depositados em conta em favor dos filhos pela parte infratora, conta que só poderá ser movimentado após a maioridade ou em consenso entre ambos os pais.

13 - O presente contrato será registrado no Cartório de Registro de Títulos e Documentos.

14 –Cláusulas especiais ................. (Opcional).

15 - As partes elegem o foro de residência do filho para qualquer demanda relativa ao presente contrato.


Cidade, .................. de ............... de ......... .

............................................................ .........................................................

Primeiro Contratante (Pai) Segundo Contratante (Mãe)

Testemunhas:

segunda-feira, abril 18, 2005

Uma dissonância a menos na minha vida cheia delas

Eu descobri que posso perdoar as atitudes de alguém que eu considerava muito meu amigo. Eu sei que provavelmente ele pouco está ligando para o que eu penso sobre ele hoje, mas era importante para mim, que mais de um ano passados ainda não compreendia o que havia acontecido.

E como a gente vai, junta uma peça, junto outra, ouve o testemunho de uma pessoa, de outra e numa conversa mais que descompromissada, surge a solução e tudo se confirma, faz sentido, explica tudo. Eu deveria confirmar, mas é tão claro que aconteceu e tão óbvio que seria negado que nem vale à pena o desgaste.

Enfim, eu não posso criticar, sem dúvida escapei vivo de tudo que me aconteceu por que eu tinha meu filho para cuidar. Hoje o Cauê é a única coisa que me importa do que eu trouxe do passado, o resto ficou no passado, mas não foi sempre assim e foi dificil superar a perda de uma grande paixão.

É fácil eu entender meu amigo, ele também perdeu uma grande paixão, talvez tão grande quanto a que eu perdi, talvez até maior, pois era com uma pessoa muito mais maravilhosa que a minha ex-mulher e é quase óbvio compreender o que quatro paredes justapostas testemunharam, embora eu tenha levado quase um ano para entender.

Desculpas pelo que eu tiver feito de errado eu já pedi, agora, mesmo sem que me tenha pedido, eu me sinto capaz também de desculpar.

Eu sei também que ele não imagina tudo de ruim que decorreu das atitudes dele e da de outros, que insuflaram ainda mais minha ex- e tudo que aconteceu dá para ter uma pequena noção por aqui, mas ninguém previu, por mais previsível que fosse, afinal eu, mais do que ninguém, sei que a criatura é encantadora, charmosa e... traiçoeira.

terça-feira, abril 05, 2005

Percebo-me subindo um tablado, talvez formado por caixas de mercadorias, há uma entrada, por onde subimos, eu e um colega da mesma idade que eu, temos três anos, não mais que isso, não menos que dois, caminhamos pelo tablado, a sensação que tenho é a de estar em um depósito, algo como exportação ou importação de mercadorias, sinto que existem equipamentos pesados, empilhadeiras, mas não as vejo, de fato, não vejo através dos meus olhos, mas vejo a mim mesmo, vejo minhas expressões, percebo meus sentimentos, eu me sinto apreensivo e, principalmente, angustiado, eu paro, meu amigo, talvez meu irmão, talvez meu eu ou algo de mim, prossegue, percebo-me no colo de um adulto, talvez meu pai, algo de horrivel acontece, não vejo o que é, vejo apenas minha expressão, eu baixo minha vista, esse adulto, que me tem em seus braços, é como se ele apreciasse o que aconteceu, o que poderia ter evitado, sinto-me péssimo por nada ter feito, apenas me quedei paralisado, não esperneei, não gritei, não chorei, aquele que em mim confiou, que seguiu seus passos emprestando a confiança que eu tinha naquele lugar, naquele adulto, acabou por sofrer um impacto imensurável em sua vida, algo de que nunca poderá se recuperar, eu nada fiz, nem chorei...

sexta-feira, abril 01, 2005

Eu deveria chorar, não consigo, na verdade, eu preciso chorar, preciso gritar, não consigo. Sinto-me paralisado, embargado. Dentro de mim há uma enorme turbulência, não consigo dormir, esperar o dia seguinte, não posso esperar mais. Minha vida se tornou esperar, esperar inóquo, indecente, inútil e impotente.

Não suporto mais reencenar o fim, meu desejo é que o fim se complete, de qualquer forma, de alguma maneira, precido do fim, mas estou paralisado, continuo paralisado, não me movo, não inicio ou termino qualquer coisa, não grito, não choro. Minha vida é esperar pelo fim, não mais que esperar, que não se abrevia por mais que eu deseje.

Desejaria voltar à vida.

Morrer talvez, mas morrer não posso, não me é possível. Voltar à vida não me é permitido.

Voltar à vida seria cômodo, mesmo uma vidinha sem brilho seria melhor que o limbo em que me encontro, paralisante, sufocante.

Angustiante. Não choro. Não grito.

Vou para o quarto, amanhã alimento minha espera.

Stairway to Heaven by Led Zeppelin

There's a lady who's sure all that glitters is gold
And she's buying a stairway to heaven
And when she gets there she knows if the stores are closed
With a word she can get what she came for

Woe oh oh oh oh oh
And she's buying a stairway to heaven

There's a sign on the wall but she wants to be sure
And you know sometimes words have two meanings
In the tree by the brook there's a songbird who sings
Sometimes all of our thoughts are misgiven

Woe oh oh oh oh oh
And she's buying a stairway to heaven

There's a feeling I get when I look to the west
And my spirit is crying for leaving
In my thoughts I have seen rings of smoke through the trees
And the voices of those who stand looking

Woe oh oh oh oh oh
And she's buying a stairway to heaven

And it's whispered that soon, if we all call the tune
Then the piper will lead us to reason
And a new day will dawn for those who stand long
And the forest will echo with laughter

And it makes me wonder

If there's a bustle in your hedgerow
Don't be alarmed now
It's just a spring clean for the May Queen

Yes there are two paths you can go by
but in the long run
There's still time to change the road you're on

Your head is humming and it won't go because you don't know
The piper's calling you to join him
Dear lady can't you hear the wind blow and did you know
Your stairway lies on the whispering wind

And as we wind on down the road
Our shadows taller than our souls
There walks a lady we all know
Who shines white light and wants to show
How everything still turns to gold
And if you listen very hard
The tune will come to you at last
When all are one and one is all
To be a rock and not to roll
Woe oh oh oh oh oh
And she's buying a stairway to heaven

There's a lady who's sure all that glitters is gold
And she's buying a stairway to heaven
And when she gets there she knows if the stores are closed
With a word she can get what she came for

And she's buying a stairway to heaven, uh uh uh.

sexta-feira, março 25, 2005

É mais do que um não querer

Hoje me vejo fazendo as pazes com você, escrevo depois de viver um daqueles dias infernais em que sua vida insiste em passar e repassar na sua cabeça, que ao final de um dia em que não se fez nada ou quase nada, há um esgotamento físico e mental indescritível, como se sua vida estivesse sendo repassada e se merecesse morrer depois de tudo.

Não sangrei, minha vida não mudou nada além do valor de minhas percepções e, o pior de tudo, não mereci morrer. Apenas uma sensação ruim me acompanha o dia todo, talvez até há mais tempo do que hoje, talvez apenas mais um momento agudo da vida que vivo em minha crise desde muito antes de ter escrito a primeira linha deste blog, desde que o mundo tenta me ensinar que das pessoas não devo esperar nada, que talvez deva esperar sempre o pior.

Não consigo. Não consigo não esperar o melhor do mundo, não consigo não esperar o melhor das pessoas, sou eu, preciso esperar o melhor de mim e sou uma pessoa e sou do mundo, mas é mais do que um não querer, é como se ao abandonar a crença nas pessoas tivesse que abandonar a crença em mim mesmo. Paralizante, mas não consigo. Há tantos estímulos me atropelando e me fazendo girar sem tempo nem mesmo para um café.

É um furacão que se apossa de mim e ao mesmo tempo que me impede de morrer, me impede de viver em paz, de abandonar aquilo que eu não posso alcançar e tudo volta de novo e de novo e de novo e de novo, numa pressão frenética para que eu faça alguma coisa quando não há nada que eu possa fazer que me permita olhar depois para mim e me reconhecer em mim mesmo e daí só me resta continuar girando. Enquanto me finjo de morto procuro um caminho que me traga de volta minha vida, minha motivação para viver.

Restaria aceitar minha incompetência, de não fazer o meu melhor para ter de volta minha vida, de não aceitar meu fracasso e desistir sem brilho, de me fingir de morto enquanto agonizo, mas até nesse momento fracasso novamente em não conseguir não acreditar nas pesssoas, não acreditar no mundo. Juro, é mais do que um não querer.

terça-feira, janeiro 18, 2005

Luta? Que luta?

Eu não sei exatamente em que momento eu poderei transformar o que vivo agora em luta. Sei que agora, não tenho o direito de garantir que meu filho tenha educação infantil de qualidade, pois a mãe dele acha que educação infantil não tem importância, para ela o que importa é escolher a escola mais perto de casa, para ela não ter o mínimo de trabalho, não importa se essa escola é pequena e barata o suficiente para que os pedagogos e auxiliares ganhem para trabalhar uma semana o que o pedagogo de uma escola boa ganhe para trabalhar em um dia. O que vale é o comodismo dela.

Alguém poderia defender a tese de que uma escola boa é cara, eu sei que é cara, mas eu faria o que tivesse que fazer para que meu filho estudasse numa boa escola, especialmente em educação infantil, com todas as merdas que a gente toma conhecimento acontecer, especialmente nessas escolinhas sem nenhuma estrutura, mas o problema não é dinheiro, não só por que eu pagaria a escola com todo o prazer possível de existir, mas por que os pai dela tem uma condição financeira razoável, suficiente para bancar a melhor e mais cara escola de Fortaleza.

Pasmém, é uma questão de preguiça, como ela não quer permitir que eu leve e busque nosso filho na escola, ela não quer perder muito tempo para isso.

quarta-feira, janeiro 05, 2005

para o pai não basta dar presentes,
o filho precisa é que o pai esteja disposto a lhe dar seu próprio ser,
para o pai não basta apenas estar preocupado com a nutrição do corpo,
o filho precisa é que o pai o ajude a nutrir sua personalidade,
para o pai não basta corrigir os erros do filho,
o filho precisa é que o pai o ajude a aprender a pensar,
para o pai não basta preparar o filho para os aplausos,
o filho precisa é que o pai o ajude a se preparar para os fracassos,
para o pai não basta conversar,
o filho precisa é construir o diálogo com seu pai,
para o pai não basta dar informações,
o filho precisa é criar histórias com seu pai,
para o pai não basta criar oportunidades,
fundamental para o filho é que o pai nunca desista dele...