sábado, julho 02, 2005

Fragmento de inspiração

As articulações prosseguem. É possível que a edição 0 não saia da idéia inicial pensada para julho, pois a viagem coletiva vai precisar de mais tempo para ser organizada, poderá ser o número um, talvez já para o mês de setembro. Então estamos divagando sobre as possíveis pautas para o número zero. Conversando acabamos chegando a este fragmento. Vamos conversando, pois acredito que poderemos encontrar subsidios para uma boa cobertura.

Vou procurar essa tese na biblioteca, lógico!

Folha - Então exatamente o que é o turismo sexual?

Piscitelli - Os viajantes à procura de sexo querem mulheres que façam programa e também mulheres que não façam. Não é apenas troca de sexo por dinheiro. Há uma romantização, há um jogo de conquista e, às vezes, até sentimentos. A pesquisa me levou a questionar o conteúdo que nós damos à palavra prostituição. Por exemplo, uma moça de classe média que se relaciona com um estrangeiro e é convidada por ele a visitá-lo na Europa, ganha a passagem e um celular, nós não pensamos que está fazendo prostituição. Mas uma garota, por exemplo uma garçonete que recebe presentes de um estrangeiro, é imediatamente vista como uma garota de programa. Então exatamente o que é prostituição? É a troca de sexo por dinheiro? E por que troca de sexo por dinheiro de maneira não imediata para a classe média não é visto como prostituição e para a classe baixa sim?

Folha - Que tipo de sonhos elas têm em relação aos estrangeiros?

Piscitelli - As diferenças, em termos das motivações pelas quais elas se relacionam com os estrangeiros, variam de acordo com a classe social e a idade das mulheres. Mas o sonho de casar com estrangeiros é uma idéia geral do universo feminino de todas as classes sociais. É uma idealização do estrangeiro e uma desmoralização do homem local.

Folha - Que tipo de desmoralização?

Piscitelli - Dizem que os estrangeiros são mais românticos, mais generosos, mais fiéis. Na verdade, tudo o que elas dizem que eles fazem eles fazem mesmo. Mandam flores, presentes, preparam café da manhã, assim como qualquer homem que quer conquistar. O que não deixa de ser uma atitude de sedução para obter sexo.

Folha - Você foi à Itália no ano passado entrevistar o mesmo grupo de garotas com quem havia falado em Fortaleza. Essa visão continuou lá? Qual a realidade dessas moças na Itália?

Piscitelli - O contexto muda completamente. Aquela visão romantizada não existia mais. Eles não eram mais tão bonitos como eram aqui, nem tão ricos quanto pareciam. Muitos são de classe média. As moças que entrevistei na Itália, que eram de Fortaleza, se ocupam de praticamente de todos os trabalhos domésticos sozinhas, com exceção do supermercado. E, além disso, trabalham fora para poderem mandar dinheiro para o Brasil, para a família. Todas as que conheci de camadas média baixa e baixa têm uma interação intensa com o Brasil e muito desejo de ter uma mobilidade social aqui. Então fazem todos os esforços para isso, para, quando vierem para cá, poderem mostrar que 'deram certo' lá.

Folha - A maioria das que foram conseguiram se casar e formar família?

Piscitelli - Do universo com o qual eu trabalhei, sim. Entrevistei moças que tinham conhecido italianos em Fortaleza e os visitaram como se estivessem fazendo programa por um determinado tempo e depois voltavam trazendo dinheiro. Outras que conseguiam apenas presentes e roupas de grife e voltaram sem dinheiro nenhum. As que ficaram lá formaram família. Apenas uma afirmou que amava o marido, e isso era visível. As outras disseram ter carinho, gratidão. Quando elas não conseguem casar, geralmente voltam. Por isso digo que nem todo o universo vinculado ao turismo sexual pode ser considerado prostituição e nem prostituição profissional. Na viagem que fiz à Espanha, no fim do ano passado, para um alargamento dessa pesquisa, falei com moças que já faziam programas aqui e foram para lá para continuar fazendo nas mesmas condições, mas para ganhar em euro. É diferente.

Folha - E as que casaram? Que vida têm na Itália?

Piscitelli - Elas têm um controle enorme em cima delas, pairando sempre o estigma de que podem ter sido prostitutas, principalmente para a família dos maridos. O controle acontece de todos os lados. Elas têm de trabalhar, mas é sempre na loja da família, no supermercado de um amigo, sempre sendo vigiadas. O policiamento corporal também é forte, decotes são censurados. As brasileiras são valorizadas de maneira positiva como sensuais, bonitas, carinhosas. Mas há fantasmas que anulam essa valorização. Um deles é o da exploração econômica e outro, o da infidelidade.
Acabo a noite em plena felicidade. Um casal amigo vai ter gêmeos. Todo meu desejo de carinho, ternura e amor para essa família que agora se transforma e se torna ainda mais linda. Realmente fiquei feliz. Gêmeos é algo legal, acho que eu queria ter gêmeos um dia, talvez por isso tenha ficado tão feliz, talvez simplesmente pelo carinho que tenho pelo rapaz que vai ser pai, talvez pela minha certeza de que serão bom pai e boa mãe.

Saber que uma nova criança vem ao mundo é mesmo um momento mágico, abrem-se tantas esperanças, a esperança de fazer tudo de melhor, de proporcionar um mundo mágico de amor, de proporcionar confiança, de proporcionar ternura, carinho e segurança. É um momento em que tudo em torno de nós perde importância.

Eu vou ser tio daqui uns dias. Meus amigos vão ter gêmeos. É a vida que continua e com a vida nossos ideais de um mundo mais feliz fazem coro em nosso coração, temos que preparar um mundo melhor, temos que nos tornar pessoas melhores, temos simplesmnete que amar, amar, amar muito.

segunda-feira, junho 27, 2005

Quando uma pessoa abre uma lata de leite condensado e mistura com leite em pó integral e côco ralado é sinal claro que não está bem. Droga-se da maneira mais primitiva, tenta superar a tristeza na busca de um aconchego infantil. Tem consciência do mal que está fazendo a si, mas insiste no processo auto-destrutivo em busca de um equilíbrio perdido.

Destruição enquanto tenta se salvar do terror de enfrentar as cruezas da vida. Não se deve viver se não se quer sofrer.

Quando a felicidade se encerra em sofrimento o grito engasga.
Há sempre uma história mais triste que a nossa e há sempre alguém sofrendo mais em nossa própria história. Às vezes esse sofrimento ocorre por nossa própria culpa, nós que deveríamos proteger, não o fazemos. Nós que deveríamos afagar, não o fazemos.

Sempre temos uma desculpa para nos esquivar de nossa responsabilidade. Em última instância podemos transferir a culpa para o Estado, que não somos nós e nos recomenda a passividade diante do sofrimento do outro. É o sistema, podemos pensar.

A dor, no entanto, não aceita nossas desculpas e nosso coração nos alerta de que um mal maior está em andamento, enquanto isso, permanecemos passivos, deixando que o outro nos dite o destino, tal qual abençoado pelo Estado. Como se o Estado algum dia ligasse para o sofrimento de um, dois ou três indivíduos.

O que são algumas pessoas diante do caos global? Para o Estado não significa nada, para a sociedade não siginficada nada. Todos esperam por sangue, é o sangue que comove as multidões, se não há sangue, há qualquer bobagem, coisa de gente fresca. Direitos Humanos? Encaremos os fatos, vivemos em uma sociedade amplamente reacionária, onde os direitos básicos são negados aos humanos, até daqueles dos quais somos parentes.

Negamos os direitos básicos do homem, quem dirá da criança, dos nossos filhos. Assistimos passivamente à crueldade com que nossos vizinhos, nossos conhecidos, por vezes nossos amigos ou parentes tratam crianças indefesas. Pensa a maioria que os filhos são mero objeto sobre o qual podem praticar seu sadismo e para isso tem o apoio de todos, da polícia, do Estado dos avós, dos tios, afinal, de toda a sociedade.

E são esses malditos sádicos perversos, que são a maioria e por isso são tão fortes e imputáveis ainda, que reclamam da violência, da criminalidade. Reclamam-se vítimas de bandidos enquanto reforçam a violência em sua própria casa enquanto meio de formação da criança. A criança nada é, nada pode, é estuprada em sua dignidade todas os dias, todas as horas.

Ora, quando se ensina violência, só se pode esperar violência, afinal as crianças crescem e já que cresceram aprendendo que o outro não tem valor, que não merece respeito, que a forma de se levar acabo seus desejos, sejam eles quais forem é passando por cima do outro, não importa quando e quanto tenha que ferir esse outro, quando adultos, é dessa forma que vão agir.

Teremos sim, sem dúvida, uma sociedade mais violenta, mas por culpa, em primeiro lugar, dos pais e mães, dos avôs e avós, dos tios e dos amigos, por minha própria culpa quando presencio a violência e nada faço além de sofrer um sofrimento inútil, que a nada leva, que nada constrói, que tão somente destrói meu dia.

Quando fazemos comida acabamos sujando a louça, eu preciso me tornar uma boa pessoa, eu preciso lavar a louça...

O mundo anda tão complicado por Legião Urbana

O Mundo Anda Tão Complicado

Legião Urbana: Composição: Renato Russo

Gosto de ver você dormir
Que nem criança com a boca aberta
O telefone chega sexta-feira
Aperto o passo por causa da garoa
Me empresta um par de meias
A gente chega na sessão das dez
Hoje eu acordo ao meio-dia
Amanhã é a sua vez
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você.
Temos que consertar o despertador
E separar todas as ferramentas
A mudança grande chegou
Com o fogão e a geladeira e a televisão
Não precisamos dormir no chão
Até que é bom, mas a cama chegou na terça
E na quinta chegou o som
Sempre faço mil coisas ao mesmo tempo
E até que é fácil acostumar-se com meu jeito
Agora que temos nossa casa
é a chave que sempre esqueço
Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo
Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um p'ro outro:
- Estou com sono, vamos dormir!
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor

terça-feira, junho 21, 2005

Alguém disse que é um absurdo tomar Fluoxetina para emagrecer, óbvio que é, o certo é Cloridrato de Fluoxetina, mas não é isso que importa, o que importa é que recentemente eu bati o carro de novo, foi só uma besteirinha, mas serviu para uma coisa, para eu parar de inventar desculpas para isso, é, eu bati, não tinha nenhum motivo sério para bater, exceto que eu não vi a moto que parou na minha frente. Não vi mesmo e não sou cego, enxergo até bem, mesmo sem óculos e estava com eles. Dia desses eu estava lendo a recomendação de tratamento com Anfetaminas para pessoas com DDAH.
Detesto contas, nunca param de chegar. Como dizia um amigo meu "ninguém me escreve para dizer que me ama", só me enviam contas e mais contas. Desprezível isso. Eu pago, pago, posso até atrasar, mas pago.

Se meu divórcio teve algo de bom, afinal dizem que tudo tem sempre um lado bom, foi que minha carreira na área de tecnologia acabou destruída, então eu vou aproveitar esse hiato para buscar minha realização pessoal.

Se der tudo errado vou trabalhar com vendas, que ao final das contas é o que dá dinheiro mesmo. Quantas pessoas você conhece que tenham uma renda de 25 mil reais com dez anos de carreira? Eu conheço poucas, aliás conheço poucas que têm essa renda ao final da vida. Talvez vendas nem seja tão ruim assim, quem sabe, um dia, por enquanto eu vou colocando as pedras no alicerce da minha realização.

Meu amor vai para longe, mais cedo ou mais tarde, é, eu sei, também vai ter um lado bom, dessa vez mais fácil de ver, mas vai ser ruim ficar tanto tempo distante. Não dá para eu ir junto agora, pois meu filho ainda é muito pequeno e o estrangeiro é longe demais, por enquanto eu fico pertinho, depois eu vou, no máximo, para um lugar em que ele possa me visitar com muita freqüência. Também eu tenho minhas coisas para concluir por aqui, não posso sair agora. Vai dar tudo certo no final!

Eu é que não posso pedir para ninguém abrir mão da carreira por mim, eu que sei bem o que é isso e sei como fica mais trágico o final quando a gente faz isso, ainda fica se achando o mais burro de todos os burros por um dia ter se apaixonado.

Pessoas apaixonadas fazem muita burrice, gostam de ferrar com suas próprias vidas em nome de um amor, de uma família. É bom fazer o que se acredita, eu sei, mas ver tudo se acabar não é nada bom.

Miami ou Lisboa bem que poderiam ser grandes centros de pesquisa, mas o cinza pode ser até bonito com uma caixinha de Prozac no bolso. O que não é bonito são bilhetes de ida e volta custando quase cinco mil reais na classe econômica, nem com muita Fluoxetina.

quinta-feira, junho 16, 2005

Hoje eu sonhei com você, dava para jurar que não era sonho. Não lhe vi, apenas lhe ouvi. Tinha a impressão que estava dentro daqui de casa, andando, tirando algo de um lugar, colocando em outro. Não consegui me levantar para ver o que era de tão pesado que dormia. Quando acordei, não vi nada, não percebi mudança alguma. A louça continua suja, por lavar, tenho que fazer isso, mas odeio lavar louça. Talvez por isso foi embora, afinal não lavo a louça, não sou uma boa pessoa.
Eu tenho que lavar a louça. Não é uma obrigação formal, é apenas uma obrigação moral, como tantas outras, tenho que lavar. Odeio isso. Não gosto de lavar louça, nem de enxugar. Não conseguiria ser apenas dono de casa, nunca consegui entender como algumas pessoas conseguem se realizar lavando louça. Eu não. Não que eu faça qualquer coisa grandiosa. Na verdade não tenho qualquer pretenção de me realizar. Um dia faço algo que preste, por enquanto vou tentando evitar fazer o que não presta. Se eu conseguisse me tornar ao menos uma boa pessoa. Talvez boas pessoas lavem a louça.
De repente eu pensei: Eu poderia convidar todo mundo para uma festa aqui em casa. Pensei nas velhas lendárias de antigamente. Pensei que bancar tudo como antigamente não dava, mas uma cota podia resolver. Pensei que era fácil contactar todo mundo que está pelo orkut. Pensei que muita gente nem em Fortaleza estava. Pensei que eu nem sei que músicas são boas hoje em dia. Pensei que preciso de mais tempo para organizar. Pensei um monte de coisa. E pensei que vai ter festa sim, mas só lançamento da revista!

terça-feira, junho 14, 2005

Ah, meu relógio passa o tempo bem devagarinho hoje, há muito o que fazer, mas um estranho sentimento me segura o dia todo, convida ao fazer nada, se tento fazer, acabo com tanto sono que cochilo um pouco. Eu preciso de mais, não posso viver com tão pouco. O tempo, meu inimigo, eu não consigo enganar, não posso voltar, não posso adiantar, tenho que esperar, caminhar, um dia após o outro. Alguns dias são vazios, outros cheios, outros são simplemente nada. Eu espero, mas não queria esperar, queria sair correndo consertando todas as coisas erradas que fiz até hoje. Não há mais conserto. Eu espero, espero, espero e nada alcanço. Vivo de manter o que já tenho, de não perder o que ainda não ganhei. Vivo sem esperança, esperando um sonho que nunca vem. O mundo é mesmo feio. Há beleza, mas de tanta feiura é preciso atenção para encontrar. Eu sinto fome, mas não tenho vontade de comer. Espero que esse vazio acabe, mas meu relógio passa o tempo bem devagarinho hoje. Ah...

Because by The Beatles

[ Abdim7; Song originally in C#m; capo -3.]

Because the world is round it turns me on
Because the world is round
Ah-ah-ah

/ Em - B7sus4 B7 / C Em C7 - / F - Abdim7 - /

Because the wind is high it blows my mind
Because the wind is high
Ah-ah-ah

Love is old, love is new
Love is all, love is you

(Abdim7) / A - / - B7 - - - /

Because the sky is blue, it makes me cry
Because the sky is blue
Ah-ah-ah

sexta-feira, junho 10, 2005

Suite de "Nossas crianças estudam para quê?"

Como foi escrito atrás, há urgencia em se rever a educação, em proporcionar às crianças maior desenvolvimento de seu potencial humano. A feira que está ocorrendo no Japão por esses dias é prova disso:

Robô humanóide é destaque em exposição no Japão

09/06/2005 - 17h15 - Do UOL

Robôs para todas as funções são um dos destaques da Expo 2005, que acontece até setembro, em Aichi, Japão. A feira internacional, com pavilhões de países do mundo todo, prossegue até 25 de setembro.

EFE
EFE
Robô Repliee (esq.)
O objetivo da feira é dar um panorama sobre o que há no mundo em algumas áreas. Entre elas, uma das que mais chamam a atenção dos visitantes é a de robôs, área em que os avanços japoneses são impressionantes.

Nesta quinta-feira (9/6), começou uma exposição de 11 dias com 60 protótipos de robôs do país.

Há robôs que dançam, tocam bumbo, jogam golfe, correm e realizam cirurgias. Outros impressionam não por suas habilidades, mas por sua semelhança com os humanos. É o caso da (ou seria "do"?) andróide Actroid Repliee Q1, desenvolvida pela Universidade de Osaka.

quinta-feira, junho 09, 2005

É estranho viver uma vida sem curto prazo. Há longo e médio, curto não há. Alguns ônus do passado que precisam ser sanados, mas nada a curto prazo. Já disse a alguém que preciso de reforços positivos breves e frequentes. O pior de tudo é que fico chato quando me concentro em meus projetos de longo prazo, penso que tenho que ler 200 livros mais outros tantos para escrever uma monografia que mereça o tempo da defesa e um punhado de artigo que a facilitada internet me permitiu arquivar em meu computador. O que um final de dia não faz? Terminei a República Velha, não vou começar o estado novo se não poderei continuar antes de segunda-feira. Prefiro esperar, começar segunda, enquanto isso aproveito o resto de semana para pensar em minha monografia. Talvez em ganhar um pouco de dinheiro em mês de férias. Eu não deveria aproveitar as férias para ler por dois ou três meses? Deveria, mas também preciso de algum dinheiro. Não posso viver assim tão essencial, tão básico, tão dietético e tão saudável.

Autoritarismo e Cidadania

Estarrecedor nessa história da Cartilha “Politicamente Correto & Direitos Humanos” é a naturalização do autoritarismo. A cartilha, lançada há quase um ano, ganhou destaque a partir de um artigo de João Ubaldo Ribeiro no O Globo, onde afirma que “Estamos ingressando numa era totalitária. É o primeiro passo para se instituir uma nova língua e baixar normas sobre as palavras que devemos usar”.

Parece ingênuo afirmar que “estamos ingressando”, quando disfarçada de democracia, a oligarquia brasileira constituiu-se desde a colonização e se mantém no poder até hoje, apesar da renovação de alguns grupos em alguns territórios.

A defesa de Nilmário Miranda, secretário de Direitos Humanos, entretanto, impede-nos de examinar até a exaustão a afirmação de João Ubaldo, pois é ainda mais sintomática do autoritarismo presente no governo que a própria cartilha. Nilmário afirma que “Não há nada de autoritário. É um texto educativo, não vai ser transformado em lei”.

Em primeiro lugar, é obviamente autoritário reclamar para si a prerrogativa de determinar como os demais devem se expressar, que palavras e expressões devem ou não fazer uso, mas é outro o clímax da afirmação.

O secretário elimina a clara relação entre autoritarismo e educação, como se uma das principais formas de manutenção do status quo não fosse justamente a educação.Educação, aliás, é matéria que, a despeito do considerável avanço das últimas décadas, permanece como espaço privilegiado para a reprodução do sistema autoritário.

Além de ignorar que o autoritarismo se manifesta através da educação, Nilmário Miranda ainda deixa transparecer em si mesmo o autoritarismo cristalizado e naturalizado, pois afirma que o texto da cartilha “não vai ser transformado em lei”, como se ele ou o governo contassem com poder tal que pudesse impedir a legislação presente e futura de se basear em tal cartilha para reformar as leis existentes ou mesmo as criar totalmente novas.

A nova cartilha do governo deve mesmo ser recolhida, talvez queimada, mas não só ela. Devem ser banidas de nosso país todas as cartilhas e todas as apostilas. Todas as promessas mentirosas de conhecimento fácil.

Os livros didáticos devem ser conservados em nossa terra, acessível a todos, mas não como instrumento de educação e sim como peça de museu. Deve-se criar o Museu do Livro Didático.

Devem tomar lugares dos livros didáticos os tão somente ou simplesmente chamados livros. Educandos de todas as idades devem ter acesso à pluralidade e à diversidade e não convidados a consumir conhecimento em forma de lata, monótono e monocórdio, com aparência de verdade.

O livro didático em sua tradição e a novidade das apostilas dos “cursinhos” são expressão do autoritarismo que assola a nação brasileira. São não mais que a materialização de uma maldição que cada geração renova para seus filhos.

É urgente que a família brasileira, seja qual for sua composição, assuma a tarefa de casa de ler em conjunto livros de história, de literatura, de geografia, de direito, de política e de vários outros saberes. Que cada cidadão seja convidado a ler em família, uma ou duas horas por dia, o livro do seu gosto. Que o governo gaste seu dinheiro comprando e distribuindo o maior número de livros através das bibliotecas ainda em funcionamento em nosso país.

Talvez com a adesão de muitos à leitura em família encontre-se saída para a tradição autoritária brasileira. Talvez muitos se tornem até consumidores, compradores de livros e de jornais, não apenas por terem desenvolvido o gosto pela leitura, mas principalmente por que certamente terão desenvolvido potencial: necessidade, desejo e poder para consumir mais que o estritamente necessário ao atendimento de suas necessidades fisiológicas ou, nos melhores casos, também de segurança.

Somente no dia em que muitos brasileiros, mesmo que não todos, mas ao menos uma parcela significativa, que seja dos jovens, puderem pensar em sua realização pessoal e profissional o Brasil poderá se ver livre do jugo autoritário de suas oligarquias pré-republicanas. Antes disso, antes da nação contar com cidadãos conscientes e necessitados de sua própria cidadania, toda polêmica relacionada à liberdade, à justiça ou à democracia é mera expressão retórica da farsa democrática high tech, com suas belíssimas urnas eletrônicas, modelo exportação para o mundo do exercício brasileiro de democracia.

Politicamente Correto & Direitos Humanos não passa de mais uma entre tantas maquiagens baratas e mal aplicadas com o objetivo de minimizar a feiúra e a crueza da parca formação intelectual da nação brasileira. Um faz de conta como tantas outras cartilhas, apostilas, livros didáticos, merendas escolares, bolsas escola, bolsas família e tudo mais que possa retardar o empoderamento popular.

Coisas novas para quem gosta: Espelho para Narcíso

terça-feira, junho 07, 2005

Nossas crianças estudam para que?

Há muito que se preocupar com a educação de nossas crianças. Os pais e as mães da classe média se sentem tranqüilos por poder garantir que seus filhos possam freqüentar escolas particulares, melhores ou piores, mas se a qualidade de ensino horas é menos sofrível em raras exceções do ensino particular, pouco se altera quanto aos princípios desse ensino.

As escolas que se dizem construtivistas ou mesmo aquelas que realmente se esforçam para o ser, estão a anos-luz de alcançar tais práticas em seu dia a dia. Todas fazem, de forma mais ou menos acentuada, pouco mais pelas crianças que as ensinar a apenas obedecer a comandos.

É claro que nas escolas que se proclamam tradicionais a situação costuma ser ainda pior, mas aos pais praticamente não restam alternativas. E por que essa preocupação, afinal a educação não é hoje muito melhor que há anos atrás?

Certamente é, especialmente a educação infantil, mas para avaliarmos a educação infantil é necessário olhar para a realidade dessas crianças quando estiverem assumindo seus papéis de adultos, ou seja, em 20 anos.

Daí que olhar para a sociedade e para o próprio mercado de trabalho em 20 anos é um grande desafio, mas poucas coisas nos parecem certas, desde que não ocorra nenhum grande colapso, tais como o desenvolvimento das novas tecnologias.

Olhando para a realidade futura é que cabe essencialmente a pergunta: Qual o sentido de educar nossas crianças a obedecer a comandos se no futuro os ciborgues o farão com muito mais competência? Independente da resposta, tal educação parece muito mais um castigo ou uma maldição e não a real preparação para enfrentar aos desafios de uma sociedade em constante mutação.

segunda-feira, junho 06, 2005

Apae versus Inclusão

A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais, Apae, está furiosa com o processo de inclusão promovido pelo governo federal, que apenas cumpre seus compromissos com a comunidade internacional desde que ratificou a Declaração de Salamanca.

É natural que a Apae não goste da idéia da inclusão, afinal, tem uma rede de escolas especiais financiadas, principalmente, com o dinheiro público e, com a inclusão, perdem muito do seu poder de barganha política e, talvez, de recursos.

A segregação é inaceitável, não se pode conviver com a idéia medieval de que as pessoas diferentes devem ser excluídas do convívio com as ditas normais, que sejam educadas em salas ou escolas especiais. Guetos de discriminação e segregação.

A Apae não deixa de ser importante com a inclusão, pois possuem ótima estrutura para a promoção da educação, mas com a inclusão poderão atender, inclusive, número maior de criança, talvez atender crianças que não receberam o rótulo de deficientes mentais, mas que também necessitam do apoio multidisciplinar existente na Apae.

A principal função da escola, a socialização do indivíduo com a sociedade, deve ser atendida e não há motivos para que isso seja ainda mais preterido. São, no mínimo, 10 anos de atraso, milhares de crianças segregadas e milhões aprendendo a segregar através da educação formal.

domingo, junho 05, 2005

Vocês já se viram com um Intento que é tudo que você quer, que lhe dá tesão, que lhe motiva, mas que parece absolutamente impossível de alcançar? Já eram os quase 200 livros que eu tenho que ler um desafio inimaginável, agora, pouco a pouco eu vou descobrindo que algumas obras são compostas de vários volumes, que outras têm mais de duas mil páginas em língua estrangeira e que, finalmente, eu acho que estou ficando velho, pois em um dia inteiro de leitura não consegui finalizar meu primeiro desafio, com meras 482 páginas, tá que a diagramação a tipografia e o papel do livro são correspondente às quatro décadas que nos separam de sua edição, mas não imagino que vou encontrar pelas bibliotecas muitas edições recentes e, para comprar, bem, um deles custa quase 500 reais, mais o frete! Ai, ai, eu preciso me manter firme!

quinta-feira, junho 02, 2005

A propaganda de margarina e a guarda dos filhos

A busca por criar um mundo alienado para as crianças pode ser uma das razões de resistência do staff do judiciário em adotar a guarda compartilhada e o projeto de guarda compartilhada que, mesmo depois de sancionado, deve mudar pouco essa realidade, posto que ainda estará nas mãos dos mesmos juízes o arbítrio do que é melhor ou pior para a criança e essa é a prerrogativa máxima posta tanto na lei atual como no novo projeto.

Podemos entender da seguinte forma:

Existe no imaginário da maioria população o ideal de uma família pequeno-burguesa feliz, do tipo propaganda de margarina, que em momento algum da história da humanidade existiu de fato, exceto em nossos desejos, em nosso imaginário.

Somado a isso, existe a crença na criança como uma tábula rasa, onde os pais e educadores vão escrever sua história, pois a vêem como objeto e não enquanto sujeito. A criança é tratada como um quase ser, uma quase pessoa. Alguém que existe e deve aprender a obedecer comandos, mesmo em meio à maioria das escolas que se dizem construtivistas.

Some-se a isso a crença de que a família é a base da sociedade e que segundo muitos essa sociedade está sofrendo um processo de degringolação (com o que eu não concordo) e isto está acontecendo por conta da desestruturação da família (do que eu também discordo).

Juntando tudo, a guarda monoparental e a presença esporádica do genitor não guardião existe com o objetivo de criar um simulacro de família pequeno-burguesa perfeita para essa criança, assim a sociedade está sendo preservada, pois que se for diferente, sua referência de lar será perdida. Para o que é muito simples substituir a palavra lar por ideal de família pequeno-burguesa e a origem do problema é claríssima.

Muitas mães e pais também querem defender essa alienação da criança, querem que a criança cresça num lar dito normal, ajustado. Sentem muita culpa por terem se separado e se defendem disso com o argumento de que são capazes de prover sozinhos ou sozinhas esse lar intacto, o que a presença do outro genitor e sua nova família apenas denuncia, quebra, rompe. Ou seja para quem pensa dessa forma, a alienação parental é até necessária para proteger a criança e, em última instância, a sociedade.

Em muitos casos o pai ou mãe não guardião se vê como mais competente para criar este simulacro de realidade que o outro, então quer a guarda para si.

Poucos aceitam de fato, que o ideal é que a criança vivencie intensamente a realidade da qual faz parte, ou seja, que integra uma família bi-nuclear, que papai e mamãe não se amam e, às vezes, nem se respeitam, pois é esse convivio com a realidade que proporcionará seu crescimento. Que a sua relação com seu pai e sua mãe independente de serem bons, maus, presentes ou ausentes é que vai prover sua primeira rede de sustentação perante o mundo.

Se ela precisa de ajuda para encarar esse desafio, como muitos precisamos em muitos momentos de nossas vidas, então essa ajuda deve ser oferecida através de profissional, psicoterapeuta infantil (ou para adolescentes) que seja um bom conhecedor das questões relativas aos filhos de pai e mãe separados.

O atual instituto da guarda e da visitação ao genitor não guardião não refletem nada além de nosso hábito de tentar tapar o sol com a peneira. De tratar nossas crianças como imbecis incapazes de se adaptar ao mundo em que vive. O que também pode ser considerado enquanto um esforço inconsciente em os tornar realmente imbecis, incapazes de alcançar sua própria autonomia enquanto indivíduos, posto que desta forma o pai ou a mãe sempre lhe serão importantes e necessários, uma vez que não poderão viver sem sua "ajuda".

E que não se pense que isso se muda fácil. Tenha-se a certeza que muitos estudantes de direito de hoje em dia, que vão se tornar juízes amanhã, saem das faculdades sem fazer qualquer reflexão quanto a isso e, mesmo assim, vão se tornar juizes de vara de família, posto que o que vivemos é apenas isso, a vitória do pragmatismo em detrimento da reflexão, só que quando se é vítima o pragmatismo é ruim, quando dele se tira proveito, torna-se um excelente aliado.